A ilusão da perfeição: o desafio emocional por trás da alta
Psicóloga de executivos analisa como o autoconhecimento é a base para uma liderança sólida e como o silêncio terapêutico revela padrões que travam o sucesso pro
Em quase todas as sessões que conduzo, chega um momento em que o paciente interrompe o fluxo de relatos sobre metas, dinâmicas corporais ou comportamentos de terceiros para mergulhar em um silêncio profundo. É exatamente nesse instante que o processo de autoconhecimento e evolução emocional ganha contornos reais. Como psicóloga voltada ao atendimento de executivos, percebo que muitos chegam ao consultório com a expectativa de encontrar atalhos, respostas prontas ou soluções imediatas para dilemas complexos.
No entanto, o que ocorre sessão após sessão é um movimento inverso: a pessoa se permite, muitas vezes após anos de negligência, olhar para o próprio interior. A premissa básica é que não é possível transformar aquilo que ainda não foi nomeado. Nomear exige uma pausa, o ato de descarregar o peso das cobranças, prazos e papéis sociais para questionar o que, de fato, pertence ao indivíduo e o que é apenas uma repetição automática de comportamentos.
Recentemente, atendi uma executiva que atravessava um processo de sucessão em uma empresa familiar. Ela estava frustrada pela ausência de um reconhecimento específico por parte do pai, o fundador do negócio. O desdobramento daquela conversa não foi sobre como convencê-lo a mudar, mas sim sobre a necessidade de ela mesma construir esse reconhecimento internamente. Essa é a pergunta que altera a dinâmica do jogo: o que você busca fora, mas ainda não validou dentro de si?
A terapia oferece um espaço de escuta profunda, algo que a rotina frenética do mundo corporativo raramente permite. É nesse ambiente que desconfortos recorrentes — como o medo de se posicionar diante de figuras de autoridade, a dificuldade em conduzir conversas difíceis ou a sensação de perseguição por metas inalcançáveis — são identificados como padrões. Uma vez nomeado, o padrão deixa de ser uma sentença de vida e passa a ser algo sobre o qual se pode atuar.
Observo frequentemente clientes que chegam com o receio de questionar seus superiores e, após algumas semanas, compreendem que o entrave não é o chefe, mas uma crença enraizada de que discordar equivale a desrespeitar. Da mesma forma, o medo de decepcionar a equipe revela-se como o verdadeiro motor de uma paralisia diante de decisões difíceis. Quando essas camadas são removidas, o paciente não recebe uma fórmula mágica, mas ganha a clareza necessária para agir de forma distinta.
É preciso ser honesta: esse processo pode ser doloroso. Encarar o espelho é um exercício desconfortável, mas é uma dor que organiza, devolve o equilíbrio e retira o indivíduo da posição de vítima de sua própria trajetória. O objetivo é recolocar a pessoa no centro da sua história, como protagonista, e não como uma espectadora que aguarda passivamente que as circunstâncias ou os outros mudem.
Ao final de cada encontro, costumo questionar qual reflexão o paciente leva consigo e qual pequena ação ele se compromete a realizar. A terapia sem esse desdobramento prático torna-se apenas um exercício de introspecção. O meu trabalho consiste justamente em conectar esse olhar interno com passos concretos, unindo autoconhecimento e resultados tangíveis, tanto na vida pessoal quanto profissional.
Em última análise, o autoconhecimento não é um luxo, mas o alicerce de qualquer liderança que se pretenda sólida. Quem domina a si mesmo lidera os outros com maior firmeza, clareza e menor reatividade. A autoconfiança exigida em negociações e decisões estratégicas nasce desse encontro consigo mesmo. Não existe protagonismo sem essa liberdade interna, e não há liberdade interna sem a coragem de se olhar de frente.
Muitas vezes, dedicamos um esforço excessivo à manutenção da imagem, da agenda lotada e dos resultados visíveis, esquecendo-nos de cuidar do que sustenta a felicidade: o encontro com nossas emoções e com aquilo que evitamos compreender sobre nós mesmos. Talvez o verdadeiro luxo contemporâneo não seja possuir todas as respostas, mas ter a coragem de se fazer as perguntas certas. É nesse espaço íntimo e, por vezes, inquietante, que a vida começa a fazer sentido.
Fonte: rdnews.com.br