Abstenção eleitoral mantém estabilidade recente, mas cresce
Embora os índices de abstenção tenham se estabilizado em torno de 20% nas últimas eleições, a tendência histórica aponta para um aumento que preocupa analistas
Embora os índices de abstenção tenham se estabilizado em torno de 20% nas últimas eleições, a tendência histórica aponta para um aumento que preocupa analistas e partidos.
A abstenção nas eleições brasileiras não apresenta um ritmo de crescimento acelerado nos pleitos mais recentes, contudo, o índice permanece em patamares elevados e, ao analisar uma série histórica mais ampla, revela uma clara tendência de alta. Em Mato Grosso, o comportamento do eleitorado nas três últimas eleições demonstrou oscilações moderadas no primeiro turno, enquanto o segundo turno de 2022 registrou uma queda atípica, impulsionada pelo acirramento entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
Dados da Justiça Eleitoral indicam que, em Mato Grosso, a abstenção no primeiro turno foi de 22,91% em 2014, subiu para 24,55% em 2018 e recuou para 23,4% em 2022. No cenário nacional, a trajetória foi similar: 19,4% em 2014, 20,3% em 2018 e 20,95% em 2022. Historicamente, o segundo turno costuma elevar o número de ausentes, mas em 2022, tanto no estado quanto no país, houve um movimento de queda, o que especialistas atribuem à intensa polarização política.
Para o analista político Vinícius de Carvalho, não é correto afirmar que existe uma escalada constante da abstenção nos anos recentes. Segundo ele, o fenômeno encontra-se estacionado em uma faixa próxima aos 20%. A exceção de 2022 é explicada pelo alto grau de mobilização, que levou às urnas eleitores que, em outras circunstâncias, poderiam optar pelo voto nulo, branco ou pela própria abstenção, motivados pelo receio da vitória do adversário.
O analista destaca que a abstenção é um fenômeno multifatorial, influenciado por renda, escolaridade, idade e dificuldades logísticas. O perfil socioeconômico é determinante, com taxas significativamente maiores entre eleitores de menor renda e escolaridade, chegando a quase 50% entre analfabetos. Além disso, o envelhecimento da população amplia a parcela de eleitores para os quais o voto é facultativo, como os maiores de 70 anos.
Em Mato Grosso, a extensão territorial impõe desafios adicionais. A distância entre sedes municipais e áreas rurais, assentamentos ou terras indígenas — que pode chegar a 300 quilômetros — dificulta o comparecimento. Somado a isso, o fluxo migratório sazonal, comum no agronegócio, faz com que muitos trabalhadores permaneçam com o título eleitoral em seus estados de origem, sem condições de retornar para votar.
Outro ponto levantado por Carvalho é a própria natureza da obrigatoriedade do voto. Com multas de baixo valor e um sistema de punição que só se torna restritivo após três ausências consecutivas, o eleitor brasileiro passou a encarar o comparecimento como uma escolha pessoal. Essa percepção, aliada ao desencanto com a classe política, sustenta o crescimento da abstenção quando observamos o período desde 2002, que saltou de 17,74% para 20,95% em 2022.
Para mitigar o problema, o analista defende medidas como a gratuidade do transporte público no dia do pleito e a desburocratização do voto em trânsito. Ele sugere que a tecnologia poderia ser melhor aproveitada para flexibilizar a votação, desde que mantidos os protocolos de segurança. Paralelamente, partidos políticos precisariam investir mais em formação e mobilização para reconectar o eleitor ao processo democrático.
A abstenção também impõe um desafio metodológico aos institutos de pesquisa. As amostras tradicionais, que consideram variáveis como sexo e renda, nem sempre refletem a probabilidade real de comparecimento de cada grupo. O uso de modelos de likely voters (eleitores mais prováveis) tenta corrigir essas distorções, mas a incerteza permanece, já que as razões para a ausência são diversas e desiguais entre as diferentes camadas sociais.
Em suma, embora os números recentes em Mato Grosso indiquem uma estabilidade na casa dos 20%, o fenômeno da abstenção continua sendo um sinal de alerta. A necessidade de compreender por que uma parcela significativa da população opta por se afastar das urnas é um desafio urgente para as instituições, que precisam encontrar formas de tornar o exercício do voto mais acessível e relevante para o cidadão.
Fonte: rdnews.com.br