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Cinco décadas de trajetória: um olhar sobre a transformação

Ao completar 50 anos de residência em Mato Grosso, autor relembra a chegada ao estado em 1976, o processo de divisão territorial e o crescimento exponencial da

Ao completar 50 anos de residência em Mato Grosso, autor relembra a chegada ao estado em 1976, o processo de divisão territorial e o crescimento exponencial da região.

Neste dia 25 de agosto de 2026, celebro uma marca significativa: meio século de vivência em Mato Grosso. Esta trajetória pessoal confunde-se com a própria história do estado e do Brasil, permitindo-me a rara oportunidade de testemunhar de perto as profundas metamorfoses pelas quais passamos ao longo destas cinco décadas.

Minha chegada ocorreu em 1976, vindo de Brasília a bordo de um Corcel 1969 de quatro portas. Naquela época, eu já acumulava três anos de experiência no Jornal de Brasília. O convite para mudar de ares surgiu da necessidade premente do governo estadual em fortalecer sua comunicação oficial, um desafio estratégico diante do iminente processo de divisão territorial que, em 1977, culminaria na criação do estado de Mato Grosso do Sul.

As tensões políticas, econômicas e sociais entre a região Norte, com capital em Cuiabá, e o Sul, centralizado em Campo Grande, eram intensas. Sob a gestão do governador José Garcia Neto, fui recrutado aos 32 anos para integrar esse esforço de comunicação, em um momento em que as relações entre as duas metades do estado eram extremamente delicadas.

Para compreender o contexto da época, é preciso recordar que Mato Grosso contava com apenas 94 municípios, sendo 38 no Norte e 56 no Sul. A densidade demográfica era baixa, totalizando 1,2 milhão de habitantes em todo o território. A região Norte abrigava 580 mil pessoas, com Cuiabá concentrando cerca de 100 mil moradores.

O clima na capital mato-grossense era de profundo pessimismo em relação à divisão, o que gerava uma resistência política significativa no Norte. Enquanto o Sul militava pela separação desde o pós-Guerra do Paraguai, em 1870 — movimento que se intensificou após a Revolução Constitucionalista de 1932 —, em Cuiabá temia-se que o estado resultante ficasse empobrecido e perdesse valor.

A história, contudo, seguiu um curso diferente. Longe de empobrecer, Mato Grosso consolidou-se como uma potência econômica, superando em diversos indicadores o Mato Grosso do Sul, que encontrou seu caminho de desenvolvimento industrial mais recentemente, especialmente com o setor de celulose.

Ao olhar para trás, percebo a magnitude das mudanças. Hoje, Mato Grosso possui 142 municípios e uma população que saltou para 3,9 milhões de habitantes. Cuiabá cresceu seis vezes, saindo dos 100 mil para os atuais 600 mil residentes. Os horizontes para o futuro permanecem extremamente promissores.

Nestas cinco décadas, o perfil sociológico da população alterou-se drasticamente. Já estamos integrando a segunda e a terceira geração dos migrantes que chegaram na década de 1970, somadas a uma miscigenação que resultou em um povo com identidade muito distinta daquela de 1976.

Minha vida pessoal também se enraizou aqui. Meus quatro filhos foram criados em Cuiabá, sendo Tiago, o caçula, um cuiabano nato. Meus cabelos brancos refletem as memórias de longas viagens por regiões que, na época, careciam de estradas pavimentadas, energia elétrica e infraestrutura básica, em um verdadeiro cenário de pioneirismo.

Atualmente, estou empenhado em organizar meus arquivos históricos para disponibilizá-los em uma plataforma permanente, preservando o registro dessa epopeia desafiadora e gratificante. Além disso, a família cresceu: meus bisnetos, Mateus, Vitória e Maria Luisa, são cuiabanos, assim como seus pais, Miguel e Mariana.

Hoje, posso afirmar com convicção que o meu coração e o de minha esposa, Carmem, tornaram-se cuiabanos por plena adoção, celebrando meio século de uma história que se confunde com o próprio desenvolvimento deste estado.

Fonte: midianews.com.br