Polícia Federal apura suposta manipulação contábil na Casas
Investigação da PF analisa se a rede varejista alterou dados de faturamento para evitar o pagamento de premiações a funcionários em meio à crise financeira.
Investigação da PF analisa se a rede varejista alterou dados de faturamento para evitar o pagamento de premiações a funcionários em meio à crise financeira.
A Polícia Federal (PF) iniciou uma investigação para apurar indícios de uma possível manipulação contábil envolvendo a Casas Bahia. O inquérito busca esclarecer se a gigante do varejo teria alterado dados financeiros com o objetivo de reduzir ou até mesmo eliminar o pagamento de bônus e premiações devidos aos gerentes de suas unidades. O cerne da apuração está no sistema de metas da companhia, que utiliza o volume de vendas das lojas como parâmetro principal para definir a remuneração variável dos colaboradores.
Esta frente de investigação ganha contornos mais graves ao coincidir com um período de profunda crise na empresa, que recentemente anunciou o fechamento de quase 300 lojas em agosto e formalizou um pedido de recuperação judicial junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). As suspeitas iniciais apontam que a varejista pode ter omitido os juros incidentes sobre as vendas parceladas nos relatórios de desempenho, contabilizando apenas o valor de face, ou seja, o preço à vista dos produtos.
De acordo com os investigadores, o foco está em entender como a infraestrutura tecnológica da própria empresa teria sido utilizada para gerar números que não condizem com a realidade do faturamento. Estão sob análise minuciosa sistemas internos como o PRWEB e o Looqbox, ferramentas que a rede emprega para monitorar metas de setores como mercantil, móveis, serviços e crédito próprio. A hipótese é que esses sistemas tenham sido manipulados para excluir encargos financeiros das vendas a prazo, reduzindo artificialmente a base de cálculo para as bonificações gerenciais.
A Polícia Federal já reuniu um conjunto de documentos que sustentam a apuração. Existem relatos de gerentes que afirmam não ter recebido a totalidade das premiações prometidas. Ao questionarem a administração da companhia, esses funcionários teriam sido informados de que os juros cobrados nos carnês seriam de responsabilidade de bancos parceiros, e não da própria rede.
Contudo, a PF obteve ofícios emitidos pelo Banco Central e pelo Bradesco que contradizem essa versão apresentada pela empresa. Segundo os documentos analisados, a própria Casas Bahia detinha a responsabilidade pelas operações de crédito, e a parceria com a instituição financeira não incluía o crediário via carnê. Com base nesses elementos, os investigadores buscam confirmar a ocorrência de crimes como fraude ou falsificação.
A apuração também tenta determinar se a prática de manipulação de dados teria um alcance nacional, considerando que os mesmos sistemas internos são utilizados em lojas espalhadas por diversas regiões do país. A escala da operação levanta questionamentos sobre a governança da empresa, que atualmente tenta renegociar dívidas que somam cerca de R$ 17,3 bilhões.
O plano de reestruturação da varejista, conforme divulgado anteriormente, prevê o encerramento das atividades de 298 lojas e o desligamento de um contingente entre 1,9 mil e 3 mil funcionários. A companhia segue sob proteção temporária contra credores enquanto aguarda o desfecho da análise do pedido de recuperação judicial, protocolado no último dia 16 de agosto.
Além dos desafios financeiros e da investigação criminal, a empresa enfrenta obstáculos no âmbito trabalhista. Por uma decisão proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT-10), as demissões coletivas planejadas pela rede estão atualmente suspensas, adicionando mais um nível de complexidade ao cenário de incertezas que cerca a organização.
Fonte: rdnews.com.br